Olá,
Vou começar por descrever uma noite minha. Vê se a reconheces.
Acabo o trabalho cansado. Sem energia para nada. E nesse estado, a coisa mais fácil do mundo é pegar no telemóvel. Não decide nada, não pede nada, é a opção sem atrito. Eu sei que há coisas que me devolviam energia. Ler um bocado era uma delas. Mas não me consigo levar a fazê-las, porque a primeira opção está sempre ali, à espera que eu coloque a minha cara no FaceID.
Entretanto são horas de fazer o jantar. Como. Sobram-me aqueles últimos momentos antes da hora de dormir, e agora já tenho o cérebro tão sobreestimulado que não consigo acalmar o suficiente para perceber que ler era o que eu queria fazer. Então volto ao telemóvel.
E é esta a parte mais estranha. Fico acordado até mais tarde do que queria, quase como vingança contra a hora de dormir. Porque sinto que não fiz nada para mim naquele dia, e ficar acordado é a única forma de roubar tempo que me pareça meu. Durmo tarde. Acordo sem energia. E o ciclo recomeça.
Durante muito tempo achei que isto era um problema de disciplina. Hoje acho que é outra coisa.
Nós vivemos numa cultura em que o descanso só é válido se servir para alguma coisa. Descansas para recuperar energia para o trabalho. Dormes bem para render mais. Até os hobbies têm de melhorar qualquer skill, senão são tempo perdido. Eu chamo-lhe a tirania do útil. E eu vivi debaixo dela sem dar conta.
Faço freelance, giro o meu tempo. E o que fazia era isto: acabava as horas de trabalho e adicionava mais uma, para melhorar competências, para me aproximar do próximo passo. Cortava no descanso. Cortava em tempo com amigos e família. Tudo em nome de um futuro que o útil desenhou para mim. E quando chegava a noite, não me sobrava nada. Nem energia, nem tempo, nem cabeça.
O telemóvel encaixa nesta vida na perfeição. Parece descanso, não exige nada, e ainda nos convence de que estamos a fazer alguma coisa. Mas repara: dizemos que o algoritmo nos mostra o que nos interessa. Não mostra. Mostra o que nos mantém lá mais tempo. Não é a mesma coisa, e no fundo nós sabemos que não é.
Foi aqui que a leitura mudou de lugar na minha vida.
Porque um romance, visto pela lógica do útil, não serve para nada. Não melhora os KPIs do mês. Não te aproxima do próximo passo na carreira. Não é otimizável. E é exatamente por isso que ler se tornou, para mim, uma pequena revolta silenciosa. É a única hora do dia em que o meu tempo não está a produzir nada para ninguém. Está só a ser meu.
Há uma imagem que guardo disto. Um dia de folga, de manhã. A luz a entrar em casa, a anunciar mais um dia cheio de oportunidades para me melhorar profissionalmente. E eu sentado com um livro, a escolher não aproveitar nenhuma delas. Parece pequeno. Não é. Naquela manhã, o meu tempo era meu.
E depois há a diferença das manhãs, que foi o que me convenceu de vez. A noite que acaba em scroll arrasta-se, deito-me tarde, acordo pior, e o dia seguinte puxa-me mais para baixo. A noite que acaba num livro acalma-me. Durmo em paz. E mesmo quando o livro me prende e me deita tarde, acordo diferente. Não sei explicar bem porquê. Talvez porque não passei a última hora do dia a encher a cabeça com cinquenta coisas ao mesmo tempo, mas só com uma.
Não te vou dizer que ler te torna mais produtivo, mais culto, ou melhor pessoa. Era cair na mesma armadilha por outra porta. A leitura não precisa de justificação.
Por isso, se as tuas noites se parecem com as minhas, não te vou pedir para mudares de vida. Só te deixo isto: uma página antes de dormir é tempo teu.
Lê-se devagar. Como deve ser.
Guilherme
